Rádio Engenho Velho

quarta-feira, 4 de julho de 2018

A MERENDA E O SONHO

Poeta Wilson Vieira

Eu não vivo escrevendo
o que é realmente necessário
porque não sei.
Quisera escrever a merenda e o sonho
das minhas carências,
mas eu posso?

O poeta só quer fabricar
coisas extraordinárias,
mas lhe brotam as canções
com as doenças das paisagens,
com as do seu intestino,
malgrado o farto empenho,
as suas oblações e desatinos!
O engenho das canções
escapa das suas inábeis mãos
malgrado os nervos travados!

O poeta afere a palavra que assenta,
a idéia que distribui e a que resulta?
Ah, mas se tudo não é uma idéia:
é apenas um sentimento escarificado,
sentimento acantonado no continente
do esquálido peito
é apenas!

O poeta nem inventa,
nem afaga, nem insulta;
ele apenas abre a gruta
das suas elaborações
e chama as suas lavas,
acorda seus vulcões!

Eu, por mim,
evidentemente não tenho palavras
e vivo trabalhar
para não morrer sozinho.
Poeta, em Recife,
se conta é no metro cúbico
e mesmo o Brasil
está tão desgraçadozinho!...

Ah, mas não tenho culpa!
Eu só lanço a frase,
eu só lanço a frase
que, sem mim, tadinha, morre.
Eu socorro a frase,
mas quem me socorre?



Nenhum comentário:

Postar um comentário

DIA DO POETA